A importância da Farmácia Hospitalar. Uma visão do paciente

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Autor:  Carlos Alberto Ebeling Duarte
 

“Na maioria das faculdades ela ainda é optativa, para os estudantes é uma estranha e para os farmacêuticos, uma grande área a ser investida”. Assim começa a matéria de capa da Revista do Farmacêutico (do CRF-SP, edição nº 59), em que o tema “Farmácia Hospitalar” é abordado. O usuário do Sistema de Saúde também deveria ser citado, pois mesmo utilizando a Farmácia Hospitalar, ele não sabe a importância que a qualidade deste serviço tem na eficácia de seu tratamento.

FolsiacoA Farmácia Hospitalar está relacionada a pelo menos três atividades fundamentais para a qualidade do tratamento de saúde, seja hospitalar ou ambulatorial. O atendimento de dispensação de medicamentos de uso contínuo ou pontual, a administração de medicamentos a pacientes hospitalizados e as assepsias, desinfecção e esterilização do ambiente hospitalar visando evitar as infecções hospitalares, sem falar nas pesquisas.

Muitos usuários do sistema, portadores de patologias, tornam-se freqüentadores assíduos das Farmácias Hospitalares. Podemos citar, como exemplo, os medicamentos para AIDS que o usuário tem que buscar todos os meses pelo resto de sua vida ou os pacientes que fazem uso de medicamentos controlados anticonvulsivantes.

Em razão do pouco tempo de duração de uma consulta médica, algumas dúvidas são sanadas diretamente nas farmácias, onde os atendentes muitas vezes estão despreparados para estes esclarecimentos.

A falta de informação de quem atende dificulta a adesão ao tratamento e ao serviço, resultando no seu abandono, já que a relação de confiança entre o usuário e o serviço é fundamental no sucesso do tratamento.

Os horários inadequados de funcionamento, não oferecendo alternativa para quem trabalha, dificulta o acesso ao serviço. A desumanização de quem atende também acaba por dificultar a adesão ao tratamento, criando a necessidade da busca ativa ou até mesmo a troca de medicação por outra mais cara em função da resistência ocasionada.

A manutenção atualizada dos arquivos e registros de usuários é de vital importância para o acompanhamento efetivo do tratamento com medicações de uso contínuo. A ausência prolongada de um usuário pode desencadear a busca ativa e a escuta do porquê do abandono ao tratamento pode significar a correção de falhas e o retorno do paciente ao serviço. A utilização do Programa de Saúde da Família no auxílio à localização destes pacientes pode ser uma solução eficiente para evitar danos maiores à saúde.

É importante o conhecimento técnico de quem atende, evitando problemas de prescrição errada de medicamentos que interagem entre si, causando riscos à saúde.

Já ocorreram fatos de prescrição de medicamento com uso incompatível serem detectados nas farmácias e o paciente ter que retornar ao médico para alterar a receita. Interações com outros medicamentos e com a alimentação também podem ser esclarecidas junto ao serviço.

O bom acolhimento faz parte do processo de adesão ao tratamento e trabalhar os preconceitos da equipe diminui a discriminação. Existem muitas denúncias de discriminação, muitas vezes implícitas, por parte de funcionários destes serviços com relação a homossexuais, travestis, usuários de drogas e moradores de rua.

A informação disponibilizada corretamente também é fundamental para estabelecer a confiança entre o usuário e o serviço. Muitas vezes não existe disponibilidade interna do atendente em fornecer a informação precisa (funcionário cansado, mal remunerado, insatisfeito). A humanização do serviço e o bom atendimento do usuário devem ser objetivos a serem perseguidos por seus administradores.

Em algumas patologias, existem medicamentos só disponíveis em hospitais, obrigando o paciente a uma internação desnecessária, ocasionando um custo ao sistema e utilizando um leito que poderia ser ocupado por outro paciente. Nestes casos, o hospital-dia pode ser a solução. No entanto, não é disponibilizado em todos os locais como deveria.

Outro serviço que poder resultar em uma economia nestes casos e numa melhor condição de tratamento para o paciente é o atendimento domiciliar. Dentro da perspectiva da multidisciplinaridade, a Farmácia Hospitalar é fundamental para indicar possíveis usuários destes serviços.

Hoje em nossos hospitais identificamos uma relação marcada, de um lado, pela passividade de quem está dependente de um serviço – parcialmente explicada pelo fato desta pessoa em geral estar fragilizada por uma doença e muitas vezes sozinha – e de outro a frieza e a desumanização do sistema, aliadas à falta de informação dos profissionais. Estes são problemas sérios a serem enfrentados na busca da adesão ao tratamento.

O profissional de saúde precisa estar ciente de que é uma situação muito difícil a de quem nunca esteve em um leito hospitalar e vê uma enfermeira se aproximar com um copinho descartável cheio de remedinhos coloridos, dizendo simplesmente que está na hora da medicação. Em geral, este momento, que deveria merecer um cuidado especial, é marcado pela inexistência de qualquer explicação sobre a medicação, sua importância, seus resultados, seus efeitos (bons e ruins). No máximo, é repetida a recomendação: “Tome, está prescrito”.

Nestes casos, na quase totalidade das vezes o profissional de saúde nada fala sobre posologia, efeitos adversos, interações com outros medicamentos ou com alimentos. Neste momento, somos reféns de um sistema que determina o que é melhor para nós.

Quem tem um pouco mais de informação, questiona o serviço, mas na maioria das vezes o paciente é absolutamente passivo em relação a tudo o que ocorre.

Outro problema sério é o da infecção hospitalar, que ocorre em 12% dos casos e que tem em média 14% de letalidade, ocasionando prejuízos imensos ao sistema, sem falar nos problemas que o paciente enfrenta. O uso irracional de antimicrobianos, a existência de processos de desinfecção e assepsia deficientes, a falta de controle dos processos invasivos e a ausência de métodos de controle das infecções hospitalares são algumas das causas deste problema.

A Farmácia Hospitalar deveria, por fim, desenvolver pesquisa e programas de farmacovigilância, possibilitando a detecção, avaliação, compreensão e prevenção dos efeitos adversos ou quaisquer outros problemas relacionados ao uso de medicações.
São fundamentais à eficácia do tratamento a constante atualização dos trabalhadores de saúde, a disseminação de informações sobre os novos medicamentos, posologias e efeitos adversos, qualificando o trabalhador para o fornecimento da informação correta aos usuários, seja na dispensação ou no quarto hospitalar. A humanização deste serviço deve ser o carro chefe para o bom tratamento.

Enfim, não adianta o Estado apenas distribuir o medicamento gratuitamente. O portador de patologias usuário do sistema tem que usar o medicamento e tem que saber como fazer o tratamento. Ele deve ser incentivado à adesão. Para isto, não só as orientações e as informações do médico são necessárias. Todo o sistema é importante. E dentro da abordagem sindrômica da saúde, a Farmácia Hospitalar é fundamental. O atendimento humanizado, respeitando o paciente em suas especificidades, solucionando suas dúvidas e auxiliando na sua informação é de suma importância para que o tratamento obtenha o êxito desejado.

 
Fonte: Revista Riopharma (CRF-RJ)

Ano: 2003